Erguido pela Sociedade Comercial e Construtora, com 14 pavimentos e um subsolo, totalizando 12.359 m² de área construída, foi, à época da sua inauguração, em 1939, uma das maiores estruturas da cidade. Sua localização na Praça Ramos de Azevedo, foi fruto de uma permuta de terrenos entre o Banco do Estado de São Paulo – Banespa e a Santa Casa. Projetado por Elisiário Bahiana, arquiteto que desenhara, pouco antes, um dos principais ícones de São Paulo, o atual Viaduto do Chá, o edifício art déco, avançou pelo século XXI praticamente sem sofrer alterações, talvez por um raro atributo: pertenceu a uma única proprietária, uma entidade longeva, tradicional e estável, desde sua inauguração em 1939 até 2019, a Santa Casa de Misericórdia.
A construção
Em 1936, o Banco do Estado de São Paulo S.A. – Banespa procurava construir uma nova sede compatível com sua estatura econômica e estudava um local para a obra. O terreno escolhido era ocupado pelo Palacete João Brícola (imagem 1), na Praça Antônio Prado, pela sua proximidade com a Rua XV de novembro, onde se concentravam as principais casas bancárias à época. O imóvel pertencia à Santa Casa de Misericórdia[1], recebido como herança de João Brícola [2] (imagem 2).
O banco, então, propôs à Irmandade um acordo em troca do palacete: construiria um edifício de 15 pavimentos nos 15 imóveis que possuía na Praça Ramos de Azevedo, entre as ruas Xavier de Toledo e Conselheiro Crispiniano (PEIRÃO; ALVIM, 1985). A Santa Casa aceitou a proposta. As obras ficariam a cargo do banco, com supervisão da Santa Casa[3], sendo a permuta oficializada apenas em 1939. Os primeiros projetos para o novo edifício, de 1936, encomendados pelo banco já continham o nome “Prédio Brícola”.

Assim como o Banespa, também em 1936, a Mappin Stores[4] começava a planejar uma mudança, pois seu contrato de aluguel na Praça do Patriarca encerraria em 1939 e não havia, até então, um acordo de renovação vantajoso com o antigo locador. A princípio, a loja também procurou o Palacete João Brícola, na Praça Antônio Prado, mas já era tarde, o Banespa já havia fechado acordo com a Santa Casa, esta, por sua vez, lhe ofereceu o prédio que aceitara em permuta com o banco, na Praça Ramos. Estabelecer-se do outro lado do Anhangabaú era, naquele tempo, uma ousadia, mas o Mappin Stores, reunindo a coragem necessária, topou negócio e cruzou o vale – carregando consigo seu icônico relógio da fachada (PEIRÃO; ALVIM, 1985). O contrato com a Santa Casa foi firmado em 9 de março de 1937 (SANTA CASA DE MISERICÓRDIA DE SÃO PAULO, 1937). Nascia assim uma parceria duradoura que faria do novo Prédio João Brícolaa casa do Mappin Stores pelos próximos 60 anos.

Contudo, pesquisa recente no Arquivo Público Municipal revelou um fato novo e relevante: um processo protocolado em 22 de junho 1936 (SÃO PAULO, 1936a) requeria o alvará de obras para um edifício, no mesmo local, com características notavelmente semelhantes ao que foi executado pelo banco (imagem 5), os solicitantes eram Luiz Aranha Júnior e Manoel Carlos Aranha, então proprietários dos 15 imóveis que dariam lugar ao empreendimento (SÃO PAULO, 1978). A petição era assinada pela Sociedade Comercial e Construtora[5], representada por seu diretor, o engenheiro Heitor Portugal. Isso permite deduzir que o edifício não foi uma concepção original do Banespa ou da Santa Casa, mas de Luiz e Manoel Aranha. As pranchas traziam nos carimbos Heitor Portugal como autor do projeto e um visto discreto nas margens de Elisiário Bahiana[6], que à época era o responsável pelo departamento de arquitetura da construtora. Bahiana havia projetado em 1935 o novo Viaduto do Chá e assinaria o projeto do Edifício João Brícola em fases posteriores.
[1] A Santa Casa de Misericórdia ou Irmandade da Misericórdia, é uma das mais antigas instituições de assistência social do país, seus primeiros registros em São Paulo são de 1562 (CARNEIRO, 1986 v.1). Ao longo dos séculos acumulou grande patrimônio imobiliário, fruto de doações, cuja renda dos aluguéis é destinada às suas atividades assistenciais.
[2] João Brícola nasceu em 1853 em São Paulo, era contador diplomado na Inglaterra, dedicou-se por 29 anos à Santa Casa de Misericórdia. Construiu, na praça Antônio Prado, esquina da rua XV de novembro com a antiga travessa do Rosário, sua residência, que ficou conhecida como Palacete João Brícola. Faleceu em 1914, deixando o Palacete, outros imóveis e metade de sua fortuna para a Santa Casa, para quem Brícola é referenciado como “o maior doador de todos os tempos” (CARNEIRO, 1986, p. 715). Era filho de Giovanni Briccola, imigrante italiano que chegou ao Brasil em 1865 para trabalhar como engenheiro na Companhia Paulista de Estradas de Ferro, depois dedicou-se ao comércio, às importações, ao câmbio, ao agenciamento de imigrantes italianos para o Brasil e à filantropia. Fez fortuna quando se tornou correspondente do Banco de Nápoles, casa que detinha o monopólio das transferências entre os imigrantes e suas famílias na Itália (QUEIROZ; ZOET, 2017).

[3] Apesar da permuta ter se oficializado apenas em 1939, relatórios da comissão de obras da Santa Casa, de 1937, revelam participação e anuência da comissão e obras da instituição, por exemplo, pela escolha de Heitor Portugal em usar estacas Franki para as fundações do edifício (SANTA CASA DE MISERICÓRDIA DE SÃO PAULO, 1937).
[4] A história do Mappin Stores começa em 1913, em São Paulo, como loja de departamentos, a partir da divisão da Mappin & Webb, filial brasileira da tradicional loja de cristais e prataria, fundada em 1774, em Sheffield, Inglaterra. Sua primeira loja ficava na Rua XV de novembro, mudou-se para a Praça do Patriarca em 1919 Naquele tempo, comprar no estabelecimento era restrito às classes de maior renda e símbolo de bom gosto e distinção (PEIRÃO; ALVIM, 1985). Em 1939 se muda se muda para o Edifício João Brícola, lá permanecendo até 1999, quando encerra suas atividades por motivo de falência.
[5] Fundada em 1922 pelos engenheiros Heitor Pimentel Portugal, Luiz Fernando do Amaral, Jorge Alves de Lima e por Ruy Prado de Mendonça, foi uma construtora de grande relevância na cidade de São Paulo na primeira metade do século XX. Ergueu edifícios residenciais, comerciais, indústrias, estradas, pontes etc., vários marcos da arquitetura paulistana como o novo Viaduto do Chá, o Edifício Saldanha Marinho, Edifício João Brícola, Jockey Clube de São Paulo, Galeria Metrópole, entre outros (SOCIEDADE COMERCIAL E CONSTRUTORA, 1939). Sua maior produção se deu entre 1922 e a década de 1960.
[6] Nascido no Rio de Janeiro em 1891, em família de construtores, Bahiana formou-se na Escola Nacional de Belas-Artes como engenheiro-arquiteto em 1920; nesta década desenvolveu, na então capital federal, diversos projetos de visibilidade, entre eles, em parceria com Joseph Gire, o Edifício A Noite, o edifício mais alto do país então. Bahiana foi um dos precursores de uma nova arquitetura que substituiria o ecletismo vigente. O arquiteto classificava o próprio trabalho como “moderno, ao gênero Perret”. Em 1928, Bahiana começa uma frutífera participação na Sociedade Comercial e Construtora de São Paulo, para onde se muda em 1930 projetando notáveis edifícios, entre eles, um dos seus principais cartões postais, o Viaduto do Chá (SEGAWA, 1984).
