A Confraria da Misericórdia de Lisboa, criada em 1498 pela Rainha D. Leonor, inspirada em organização similar de Florença, na Itália, era uma irmandade que “atuava junto dos pobres, presos, doentes […] e apoiava os chamados ‘envergonhados’, pessoas decaídas na pobreza, por desgraça” (SANTA CASA DA MISERICÓRDIA DE LISBOA, 2023) é a mãe e modelo de todas as demais confrarias que viriam a surgir a partir daí. Também conhecida como Irmandade da Misericórdia, ou simplesmente Santa Casa, a instituição estava intimamente ligada à Coroa portuguesa e às conquistas territoriais do reino. A organização logo foi replicada em todas as possessões portuguesas e se mostrou muito útil na preservação da ordem, articulando a religião e a assistência social, e foram fundamentais para a consolidação do próprio império luso. Segundo Glauco Carneiro 1,
[…] a genialidade da solução foi reunir, sob a denominação e as obrigações de irmãos, fidalgos e oficiais mecânicos, ao lado de um certo número de letrados, todos animados do fim único de bem-fazer pela prática da caridade cristã, envolvendo-se num salutar convívio social, donde não podia deixar de resultar benéfica e decisiva influência na aproximação das classes em que se compunha a sociedade do tempo.
Ou seja, era uma organização em que as elites convergiam para praticar caridade por meio de doações ou trabalho direto, ganhando prestígio diante de Deus, do Rei e da sociedade.

A primeira Irmandade de Misericórdia no Brasil foi fundada em São Vicente, por Brás Cubas, em 1543. Posteriormente, elas se espalharam em novas vilas. Em São Paulo, a primeira menção é de 1562, tornando-a uma das mais antigas instituições locais, com história entrelaçada à da cidade. As elites também tinham ligação com ela, sendo que “a classe empresarial paulista sempre esteve envolvida com a caridade praticada através da Santa Casa” 2. Isso é evidenciado pelas numerosas ruas e avenidas da cidade nomeadas em homenagem a personalidades ligadas à Irmandade. Assim, embora não seja uma entidade estatal, pode ser considerada política, dada a busca das lideranças locais por distinção e boas relações sociais proporcionadas pela associação.
Além das doações em vida, essa elite também deixava parte de sua herança para a instituição. João Brícola fez isso, contribuindo para o grande patrimônio imobiliário adquirido ao longo dos séculos, com diversas edificações na cidade 3. A renda proveniente de aluguéis sustenta as atividades assistenciais da Irmandade, no entanto, ao longo da história, houve momentos em que as despesas superaram as receitas, como em 2014, quando a instituição enfrentou uma das maiores crises, acumulando dívidas de até R$ 900 mi.
