
O Mappin não foi uma loja de departamentos comum. Sua trajetória se inicia em São Paulo, em 1913, como Mappin Stores, a partir da divisão da Mappin & Webb, filial brasileira da tradicional loja de cristais e prataria, fundada em 1774, em Sheffield, Inglaterra. Desde o começo, a marca transformou o ato de ir às compras em uma experiência corporal e sensorial associada às possibilidades de recreação e socialização, além disso, frequentar e comprar no Mappin era símbolo de bom gosto e distinção (PEIRÃO; ALVIM, 1985).
A loja foi inspirada nos grandes magazines europeus, que ditavam os padrões do comércio então e que não eram apenas espaços de venda, mas lugares discursivos que atuavam pedagogicamente e que materializavam valores da burguesia ascendente, propondo novos gostos, hábitos, comportamentos, fazendo do consumo um fim em si mesmo. Estes estabelecimentos estruturaram as práticas comerciais tais como são experimentadas hoje, destacando-se: a fixação dos preços, a implantação do crédito e a venda à distância através de catálogos; a transformavam as lojas em espaços de sociabilidade; ensinavam o que, como e quando consumir por meio de sua comunicação e de seus catálogos (CORBO; FRID; ROCHA, 2014). Repetindo esse modelo, o Mappin introduziu na cidade um novo paradigma e é recorrentemente lembrado como um empreendimento de extraordinário sucesso. A loja já foi estudo de caso em pesquisas que analisaram diversas categorias da vida cotidiana e do comércio: a cultura material, o poder da propaganda, a moda, os gostos de classe, estilo, distinção, lugares de consumo como palcos de performance, a representação nas vitrines etc. (CARVALHO, 2011; LOBATO, 2018; PITTERI, 2024).
Sua primeira loja ficava na rua XV de novembro, em 1919 muda-se para a Praça do Patriarca, onde se consolida e adquire expressivo prestígio. Nos anos de 1930, o edifício eclético que ocupava já se mostrava acanhado e o Mappin começaria a planejar uma mudança. Em 14 de abril de 1939, se transfere para um grande e moderno prédio, o Edifício João Brícola, na Praça Ramos de Azevedo, já com 50 departamentos e 500 funcionários (LOBATO, 2018), levando consigo seu marcante relógio inglês, que já fazia parte da identidade loja e que permanece até hoje na fachada do prédio como um último “vestígio insistente e permanente do Mappin” (PITTERI, 2024, p.26).
Inicialmente direcionada para classes de maior renda, a loja passou gradativamente a ampliar sua clientela para a classe média e a abrir filiais, e assim atravessou quase todo o século XX. Em 1984 uma pesquisa realizada pelo Instituto Gallup apontou que 97% dos paulistanos conheciam o Mappin e que 67% deles já haviam comprado em alguma de suas lojas (NASCIMENTO, 2013). A marca se expandiu, adquirindo concorrentes, até que a partir de 1991, instalou-se uma crise financeira incontornável que culminou no seu encerramento definitivo em 1999. O prédio da Praça Ramos ficaria vago pela primeira vez em 60 anos sendo ocupado pelo supermercado Extra e posteriormente pelas Casas Bahia, que o utilizou como loja e escritórios administrativos por 19 anos.




